Quando nos deparamos com o final ou quase final de uma fase das nossas vidas, é comum surgir um misto de alguns sentimentos: ansiedade, medo, angústia, expectativa, esperança. Na verdade, não alguns, mas todos eles.
Nessa fase da minha vida que se aproxima, o medo atropelou todos os outros e, inclusive, passou por cima da expectativa. Não. Acho que medo e expectativa andam sempre juntos.
Quando nascemos, o médico corta o cordão umbilical, o que deveria, em tese, separar nosso corpo do da nossa genitora. O doutor só esquece-se de cortar o cordão umbilical da expectativa. A expectativa nos acompanha desde a nossa primeira respiração até a última batida do nosso coração.
Ao nascer já jogam uma carga de “tomara que” sobre o pobre serzinho que acaba de vir ao mundo. Ao invés de tomara que ele seja o que ele quiser ser, o que costumamos fazer é: tomara que seja bonito como o pai e inteligente como a mãe, tomara que seja jogador de futebol, ou advogado, médico, bailarina, astronauta; tomara que continue com esses olhos azuis, tomara que o cabelo dele cresça, que a primeira palavra seja mamãe, que ele goste de meninas, e por favor, tomara que seja bem dotado. Ou, se for menina, Deus queira que não seja puta.
Alguém se lembra de perguntar o que NÓS queremos que-tomara-que-aconteça-tudo-isso? Não. Conforme crescemos, tomara que o menino seja pegador, tomara que a menina seja virgem, PRA SEMPRE. Depois, tomara que curse aquela faculdade, que arrume um namorado rico e case cedo (o enxoval já está pronto).
As meninas são criadas desde a barriga da mamãe pra que casem e tenham filhos. E não me diga que é um pensamento antiquado. Por que nossos presentes geralmente são bonecas, fogõezinhos, roupinhas? Por que não nos dão um estetoscópio, uma pasta, um jogo de raciocínio lógico? Eis a resposta, porque meninas de família devem ser literalmente meninas de família. Uma família, de preferência bem grande, cheia de fraldas pra trocar, bebês chorando, cachorros latindo, brinquedos no chão da sala e panelas no fogão.
Depois que crescem, as meninas ganham Barbies. Aquela boneca de cinturinha fina, peitão e medidas perfeitas (ai, que inveja). E aí, começa a revolução feminina. Pelo menos a minha. A minha Barbie tinha um nome de artista de Hollywood, dividia o namorado com a irmã, trabalhava até tarde, transava todas as noites e, pasmem, não tinha filhos nem cachorros. Ainda usava um decotão de arrancar suspiros do Ken (coisa que até hoje eu não consigo).
A mamãe, pelo contrário, nunca me preparou pra um casamento; e apesar de ter me preparado pra vida lá fora (essa vida de agora), ela nem fazia idéia de tudo que eu iria encontrar. É mais ou menos como a música do Zezé, só que ela não conhecia toda pedra que eu iria por o pé.
E hoje, mamãe, eu que nunca deixei o cordão umbilical ser cortado totalmente, agradeço por não ter me preparado pra ser uma mulherzinha que só quer casar, mas tenho que confessar: eu quero casar. Além disso, quero também ter uma vida profissional, panelas no fogo, crianças chorando e cachorrinhos querendo atenção. Quero ser uma mulher Bombril. E o que isso tem a ver com expectativa? Tem a ver com a minha expectativa. A sua pode ser uma casa grande, mil amigos, um amor, fama e dinheiro. A minha, é um apê na cidade, uma casa na praia, dois cachorros, três filhos, um amor, um emprego, um carro da hora, algumas viagens no currículo e momentos felizes pro resto da vida. Final feliz. Melhor, vida feliz.
E o que eu me pergunto, agora, nessa fase da vida que se encerra é: será que eu vou chegar perto de uma delas? Que seja pelo menos da vida feliz. Amém.
Esse texto e da minha talentossissíma amiga @DaniBallardinque AINDA não tem blog, mas tem #Twitter e sempre solta umas boas e irônicas frases.
Espero que gostem!! Beijos!!
@WelenMedeiros